Mais uma vez me vejo nesta sala, cheia de mulheres abandonadas, mais
uma vez abandonada a minha sorte de mulher extremamente livre. Com a
consciência tranquila e a alma perturbada. Difícil não concluir
que minha decisão não tenha sido a mais certa, mas a proximidade
da Data e a repetição das situações me deixaram inclinada a
pensamentos de que haveria outra escolha, se quisesse. Porque poder
sempre se pode. Assim dizem.
Desde criança percebi que seria diferente, que nutria uma afinidade
além do comum com os meninos. Nunca tive aquela aversão pueril aos
diferentes, ao sexo oposto, nunca enxerguei os meninos como a coisa
mais nojenta e bruta que poderia conhecer. Pelo contrário, entendia
suas opiniões, seus gostos, concordava com a maior parte de suas
atitudes, sua posição perante a vida. Admirava sua força, seu
desprendimento, sua liberdade. Sabia que o mundo era deles. Percebi
não muito tarde que tinha uma “mente masculina”, embora passasse
longe da possibilidade de ser lésbica. A afinidade e a admiração
que eu sentia pelos meninos era acompanhada sempre de uma enorme
atração física, uma vontade descabida de tê-los para mim. Eu
adorava tudo o que eu tinha de feminino, compreendia toda a grandeza
emocional de ser mulher, mas não conseguia dar o mundo aos meninos,
deixá-los donos de tudo, tão pouco do meu desejo, do meu sexo. Da
minha liberdade de sentir, de querer, de viver. O mundo também era
meu.
Ou na verdade não era, e cresci sob a sombra de julgamentos, sob a
permanente possibilidade de ser usada e descartada, de ter meu
caráter condenado, de nunca deixar de ser um buraco disponível.
Ainda que um belo buraco.
Vivi sozinha de amigas, poucas se davam ao desfrute de serem
percebidas com coisas em comum comigo, por mais que até admirassem
meu jeito, minha conversa, a dificuldade que eu tinha em ser atingida
pelas humilhações do preconceito. Por outro lado tive bons amigos,
rapazes que não demoravam a perceber que eu não era necessariamente
frívola, que minha liberdade não era diferente da deles, maior ou
menor, que eu era um buraco que falava e pensava, muito. Pena que
ainda encontro dificuldades de ver nos olhos deles confiança para o
amor, para a entrega. Talvez porque mesmo eu não saiba se teria as
respostas do que eles indagam.
Ser tão livre quanto um menino me permitiu, agora adulta, ceder às
molecagens do Jezreel. Nossa relação antiética tem tentado conhecer
os extremos, analisá-los, julgá-los, concluir se têm mesmo o peso
que o senso comum argumenta. Com uma escala evolutiva interessante,
nossa relação passou por diversos momentos bem distintos. Conheci
ele bem jovem, com quatorze ou quinze anos, nesse trabalho
“socioeducativo” em que caí de paraquedas. Me atanazou a vida
toda, grosseiro, agressivo, instigava em mim as aversões que
raramente tive. Passei por diversas lições pedagógicas para
conseguir suportá-lo, o que nunca fiz, até que ele simplesmente
sumisse da minha rotina. E surgisse novamente, eu já desmoralizada
pela regra de nunca ter envolvimento com educandos, com toda sua
empáfia, mas agora muito mais discreto, e esbelto, aos dezessete
anos, expondo sem dó seus atributos de quase adulto, e sua coragem,
que me acua, seduz e chantageia.
“Você também tá gostosa” foi a primeira coisa que me
disse quando eu observei que ele tinha crescido. Quando pedi
respeito, disparou que sabia do Eliabe, e também do Felipe, e do
Gabriel. E que em dez minutos eu o encontrasse no banheiro para
chupá-lo senão ele contaria a todos da instituição que eu havia
“dado” pra educandos menores de idade. Fui lá e chupei.
O cretino exigiu que eu engolisse. Até pensei depois numa maneira de
resolver aquilo, de interromper aquela situação que com certeza se
agravaria, mas a forma como ele agiu, e falou, e o pau dele me
deixaram com uma pequena vontade de ir adiante, de deixá-lo me
conduzir, e aproveitar. Ele era só um moleque a fim de sexo, agora
alto, encorpado, com a mesma voz grave e autoritária, querendo meter
na gostosa que sempre o repreendeu. Eu era só uma mulher, que se
permitia se submeter às ordens do próprio desejo, há tanto tempo
tão livre. Cedi, como sempre, às minhas pequenas vontades.
Ele tinha mudado. Estava voltado agora bem mais às mulheres,
praticava e desenvolvia seu talento para caçar e matar a fome. Tão
ousado quanto irresistível, uma perdição para mulheres como eu.
Ele me chantageava e ameaçava bastante no início, devido a minha
resistência, a minha ciência de saber que aquilo poderia ser muito
perigoso, poderia me levar a situações irreversíveis. Ficar à
mercê de um garoto de pau duro sem nenhum caráter era um empurrão
ao precipício. Mesmo que eu alegasse que tudo que vivi não teve
nada de ilegal ou imoral, que foi tudo consensual, que eu nem era tão
velha, e que eu era sobretudo uma mulher, incapaz de forçar um homem
a qualquer coisa, e que não havia lógica em dizer que fui penetrada
a contragosto de alguém, e o que havia vivido, por exemplo, com o
Felipe, fora uma relação estável, afetiva, duradoura... “Ele
sabe que foi corno?” – interrompeu debochado. “Eu sei tudo
isso, eu sei que cada um meteu porque quis, e sei que você é só
uma vagabunda, mas é um escândalo, não é?”. É. “Além do
mais sei que agora você tá com o Charles, e você já fez
ele de corno comigo, e vai continuar fazendo. Você vai dar pra mim
sempre que eu quiser”. Era isto no início, depois foi ficando
claro que já éramos amantes, cúmplices, até amigos...
Nem nos víamos com tanta frequência assim, ele era de fases.
Passava dias, até semanas sem me procurar, depois ligava e exigia
que eu dissesse que eu “estava louca pela pica dele”. Gostava que
eu pedisse “por favor” para ele vir até em casa me comer, e
muitas vezes queria que eu agradecesse “por ele ter me comido, e me
enchido de porra”. Como com o tempo a chantagem dele passou a me
excitar, muitas vezes eu provocava, dizia que o pau dele era muito
mais gostoso que o do meu namorado, que a porra dele era muito mais
gostosa. Ele sorria convencido, certo de si, de que era verdade, e eu
sempre me excitei com sorrisos de vaidade. Não resisto a eles.
Outo dia ele foi um pouco além do permitido. Disse que tinha visto
uns vídeos, perguntou se eu aguentaria duas picas de uma vez, “uma
no cú, outra na buceta, claro”. Respondi que não
sabia (menti), que nunca havia feito (menti). “Porque tô a fim de
meter em você junto com algum amigo meu, chamei o Miguel, e quero
saber se você pode hoje depois do trabalho”. Aquilo foi um baque.
Miguel? Duvidei que ele já tivesse colocado alguém no jogo, dito
tudo, isso rompia com nosso trato, mas ao mesmo tempo pensei na
situação, de como isso seria “safado”, mesmo que ficar refém
de dois agora fosse impensável. Olhei bem pra ele, queria acabar com
tudo, e saber por que o Miguel e o quanto ele sabia, desde quando, e
quantos mais sabiam, porque o Miguel era meio amigo do Charles,
irmãos de outros garotos com quem trabalhava, tudo aquilo era um
absurdo, mas eu apenas vacilei: pode ser. “Beleza, acho que você
vai gostar da pica dele, a gente já comeu outras vadias juntos, mas
acho que pra você não ficar muito cismada vou falar pra ele usar a
borracha, só eu que vou esporrar dentro. Mas tô decidindo ainda.
Porque seria legal você levar no cú e na buceta”.
Levei no cu e na boceta. Na boceta eu levei do Jezreel. Fiquei de dar
um dia pro Miguel sozinha pra ele gozar na boceta. Mas foi um péssimo
dia, ou melhor, uma péssima ideia. Tenho pra mim que foi ali, o
Jezreel quase sempre ejaculava na vagina, como quem procurasse por
problema, mas sinto que não foi em outro dia, mas naquele. Foi um
dia com jeito de importante. Porque não era pra ter acontecido, nada
aconteceu como previsto, não era pra termos envolvido o Miguel, não
era pra ele não ter usado camisinha, não era pra eu ter deixado que
não usassem, pois eu não estava num “bom dia”, e não era pra
ter sido o Jezreel na boceta. É que o Miguel não conseguiu segurar, e
gozou antes que trocassem.
Eu continuava errando. Minha cabeça de homem erotizava essas
besteiras. Mas eu sabia que meu corpo era de mulher. Gostava de
esquecer, mas sabia. E sabia que uma mulher é sempre uma mulher
sozinha. Ainda mais grávida.
Eu não me prevenia o suficiente. A sorte é que dessa vez o Charles
era um namorado maravilhoso e sensato, mesmo do alto dos seus
dezenove anos, era mais sensato do que eu, ou talvez soubesse a
namorada que tinha, já que estou com a sensação de que perdi o
controle de tudo, não tenho mais a minha vida nas mãos. Ele passou
a se prevenir por conta nas últimas semanas, coincidentemente depois
que, sem tempo de um banho, não tive como não evitar que ele me
chupasse momentos depois de ter transado com o Jezreel. Mas eu não
tinha o mesmo cuidado. Sabia que estava vulnerável e, como uma
adolescente (talvez seja isso: tenho a cabeça não só de homem, mas
de um homem adolescente), permiti que meu parceiro fizesse o que
queria. Quer dizer, entre o Charles e o Jezreel surgiram outros, que
Jezreel nem sonha, mas só ao Jezreel eu dizia sim, simplesmente. Eu
gostava de dar poder a ele.
Agora estou pensando que espaço deixo ao Jezreel na minha vida de hoje
em diante. Não sei se há como interromper o nosso jogo, se ele
nunca será interrompido, mas minha vontade é que tudo acabe, como
fiz acabar essa remota possibilidade de ele ser pai do meu filho.
Porque tenho certeza de que ele não seria como os outros, ele se
soubesse exigiria ser pai, exigiria ostentar a minha barriga e depois
a criança, ainda que por alguns meses apenas. Li outro dia uma
matéria que os jovens atuais enxergam a gravidez como uma elevação
do status social, as meninas tratam como se fossem mais mulher
que as outras e o meninos como prova de que são viris. A matéria
alertava para a distorção de valores, alarmava que parte das
adolescentes engravidavam porque queriam, planejadamente. A barbárie.
E Jezreel eu sabia fazia parte desse grupo, e ainda era evangélico, e
a religião só surge nesses momentos. Ainda tiraria um sarro:
“quando vai contar ao seu namorado que tá grávida de mim?”
“Quero estar junto pra ver a cara dele, ou se quiser eu mesmo
digo”.
Não. Não seria o Jezreel o pai do meu filho. Eu não iria
apresentá-lo a minha família, aos amigos, aos vizinhos, eu não
iria olhar para aquele garoto estúpido, vulgar, desarranjado,
imaturo, com um péssimo gosto musical, e até meio feio, com todos
aqueles amigos idiotas, e saber que carregava em mim um vínculo com
ele para sempre, fosse um filho ou um segredo. Para sempre é tempo
demais. E Jezreel é só o que eu guardo numa caixa dentro do armário.
Para ele eu dou um tênis. E um tempo. Alegarei cólicas, uma virose,
não sei, algo que o afaste um pouco da minha cama ao menos. Ele e
Charles. Ele e todos. Preciso me refazer, me repensar, preciso
concluir que sou uma mulher, embora isto hoje esteja tão claro que
queima as minhas vísceras. Meu útero remoído grita que eu sou uma
mulher, que eu me lembre mais uma vez que eu sou uma mulher. Só uma
mulher. Que uma mulher tem um compromisso inadiável com o próprio
corpo. Com a vida.
Hoje faz muito sol, o céu é muito azul. É tudo muito quente.
Muito poucas vezes ele me pedia, algumas até discretamente, por
dinheiro, ou presentes, como andava fazendo nos últimos dias, devido
à iminência do Natal. Eu dava sempre, um trocado ou um pouco mais
do que isso. Agora ele queria um tênis. Eu até então não sabia se
daria, não gostava de dar nada que custasse, sei lá, mais que cem reais, para que nossa relação não ficasse ainda mais
perigosa, mas o momento pede. Nossa relação ultrapassou todos os
perigos. Logo que sair daqui passo no shopping. Vejo um modelo bem
caro e compro. Dou um beijo nele e aviso que preciso me afastar. Um
pouco só. Ele deve protestar, dizer que não abre mão de me comer
antes do Charles, de me chupar inteira, a xoxota, os bicos dos meus
seios, de beijar a minha barriguinha... Que esse é um presente de
Natal digno. Precisarei de mais essa força, pra superar essa
distância entre o que ele tem de homem e eu de mulher. Pra superar
essa liberdade que escolhi, de ser sozinha, de ter o mundo pra mim.
Pra não jogar a vida na cara dele: Digno? Como presente de Natal, te
digo: acabei de abortar o seu filho.
(de Paloma, um anseio)
1 comentários:
Putz!...
comecei a ler, e me perguntando iria falar do natal, quando cheguei ao meio do texto, pensei, o que esse porra tem a ver com o Natal, mas ai a historia já estava boa, e li até o final...
Feliz Natal?
E isso acontece!....
Péssima historia, Triste historia, texto "chocante", tocante e espetacular.
Great.
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