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segunda-feira, 8 de agosto de 2011

À beira do íntimo

Havia dois copos de sucos na mesa, e um sol lá fora. Era uma tarde simples. Os dois procuravam as melhores palavras, mas não conseguiam dizer nada em meio àquela conversa toda. Não conseguiam acabar os assuntos, não conseguiam deixar de começar outros, todos pouco importantes, atrasos de umas verdades que ambos ainda decidiam se de fato conheciam e se valia a pena revelar.

Tentavam julgar a intimidade. Tentavam, não, julgavam. Negavam-na com cada dúvida, cada hesitação. Intimidade era uma palavra grande, melhor não pensar nela. Os assuntos então continuavam a acabar, e a recomeçar. Traquinagens de infância, filmes, sortilégios, estampas, cores, e o clima, e o tempo. Tudo era um não assunto, uma não conversa que se esticava. Com um fim conhecido, só mesmo os copos de suco, e o sol lá fora.

Refletiam ao menos. Olhavam o movimento dos dedos, de um e de outro, pensavam sobre tudo o que falariam, caso falassem, mas não falaram. Tanto pensamento que virou uma conversa comprida, pra dentro, trazendo as quase mesmas emoções como se pronunciassem pro outro tudo o que diziam a si, os dois, ali, agora sem perceber, em silêncio.

Tentavam se concluir. Passar adiante as intimidades. Que a vida do sexo nos banheiros, nos cantos dos clubes, nos bancos dos carros, nos minutos corridos dos motéis, às vezes tornava um pouco tenso o que se distanciasse demais daquele contexto. Um olhar, um toque mais fundo, um beijo sem pressa, que vai conhecendo as carnes, as curvas, as quinas, os espaços, as pausas, os limites do íntimo, pode paralisar um corpo antes afeito dos mesmos carinhos. Assim mesmo. Paralisar.

Que surgiram pequenos medos, do próprio corpo, da própria higiene, de uma situação nova ligeiramente comum e bizarra, e íntima, que não se fala, mas se lida sempre. Ah, um corpo nu desarmado numa cama que não é de motel, num escuro que não é da rua, num frio que não é dos becos – o que fazer longe da casa que se conhece?

Que muitos anos passaram e moldaram seus retratos, que ora revelam traços inconvenientes, ora fardos que não se escolhe, ora ocultam todas as possibilidades que, sim, podem existir. Às vezes até mesmo querem que existam.

Que o medo existe, o ciúme, todas as dúvidas. Você não se importou mesmo com aquele beijo? Aquela noite? Com o que sabe sobre mim? Com o que não sabe? E o que faz quando é distante? Você se afasta de mim? Havia um mergulho nas conclusões que tumultuavam todas as palavras, todos os olhares, opiniões que apontavam agora uma melhor alternativa do esfriamento, do afastamento... Não deixemos que a intimidade chegue e bagunce estas não oportunidades que nos damos. Opiniões que apontavam em seguida uma melhor alternativa do esperar mais um pouco, fiquemos assim calados, você do meu lado, sem falar, sem pensar, quase não vivendo. E depois apontavam uma outra melhor alternativa de viver sem muito blá-blá-blá, de assumir o que já é, que tem sido, o que somos, e com Bethânia: Então não fale nada, apague a estrada que seu caminhar já desenhou.

O suco findava dos copos, o temor era crescente. Que fazer de uma mesa vazia, de copos vazios? Pra onde iriam, que decisão tomar? Adiaram um pouco o sugar dos canudos.

Beijarem-se entre outros, após outros, horas seguintes, no dia seguinte, não era exatamente uma alternativa. Rótulos, compromissos, promessas, convenções, o que haveria de tão errado ou tão certo em optar por aquilo que, talvez – novamente se metiam às conclusões –, já existisse? Um dos dois calculava a liberdade. Outro cantarolava. “Sermos dois e sermos muitos”... “Nos sabermos sós sem estarmos sós”... Bethânia que se calasse um instante.

O amor talvez fosse mesmo uma palavra de luxo, como dizia aquele tal poema, mas os dois se estreitavam numa vontade de serem íntimos. De meterem fundo a mão nas tripas do outro, e retorcerem toda vida que encontrassem. Uma violência a implorar por reciprocidade. Os dois se apertavam na catástrofe de já serem íntimos. De estarem a um triz um do outro.

Deixa eu te falar das minhas inseguranças de adolescente, do que me faz tenso e sentir frio. Deixa eu te falar da minha falta de jeito na tua cama, do labirinto que me é as tuas cobertas, esse vulto de monstro que é o teu cheiro de casa, esta tua pele à luz do dia. Fica mais um pouco se eu falar, se eu te ouvir? Ou teu alcance às minhas carnes será o nosso fim?

Seguravam as palavras, mantinham a vida nos dentes. Uma úlcera se anunciava, mas fazia sol ainda. Queriam, mas não deixavam, não sabiam bem o quanto queriam que escapasse o que significavam um ali, diante do outro.

Deviam mesmo revelar tudo, encher de pesares aquele dia simples? Pesares? Dizer as coisas até poderia abrir os caminhos, sossegar as costas, mas só se a intimidade fosse esperada, querida, trabalhada. Poderia ser que só com intimidade fosse possível um conforto, uma felicidade. Só um passo a mais. Mas só se houvesse tempo para a intimidade. Essa última coisa que se consegue de alguém.

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