Se eu mergulhar nisso? Sei que estar nas mesmas condições que você não nos faz livres, porque não há mesmas condições, haverá sempre alguma diferença que, se ignorada, será o pior de tudo o de ruim que já existe. Neste sentido não faz sentido a sua vontade, a sua esperança. Porque somos diferentes agora e seremos diferentes sempre, nossos corpos são diferentes e reagirão talvez de forma oposta à mesma desgraça. Não me recuse tão fácil, porque eu caio nesse abismo junto contigo se quiser. Me dê um tempo mínimo, e eu volto como queira, volto nas condições que imagina que um possível namorado tenha de estar. Ou me coloque você mesmo nessas condições. Todos os caras saudáveis, extrovertidos, lindos e bem-sucedidos que conheci não têm um sexto da sua vida, de tudo que vejo em seus olhos, de tudo que sei que me oferece. Precisamos só de um cuidado a mais, não é? Seja eu como você é, ou não, precisaremos sempre desse cuidado, porque seremos diferentes sempre, você sabe. Imagino que imagine que a intimidade pode ser melhor, que a rotina pode ser melhor, quando a realidade é parecida, a perspectiva, os sentimentos, quando se vive sob a mesma catástrofe, quando se enxerga o mesmo escuro. Mas você mesmo diz que sua situação é um detalhe, que você tem muito mais, que você é muito, pois eu te digo que vejo esse mais, e que minha situação também é um detalhe. Eu enxergo a luz dos seus escuros, te vejo, te acho dentro deles, e quero te fazer me achar dentro dos meus, te expor que meus escuros são tão escuros quanto os seus. Não me julgue, minha desgraça agora só é diferente, e sempre será, mesmo que eu troque a minha por uma como a tua, sempre será. Conheço os teus medos, sei que teme morrer depois de exposto e vulnerável ao meu amor, sei que teme não resistir a um abandono, a uma desistência, sei que pensa primeiro que eu não sou capaz, que não levo adiante, que não insisto, que não agüento. Mas eu também tenho medo do seu abandono, que rejeite o que eu sou, que não me permita viver o que sei que viveria com você. Eu abro mão, já disse, largo esse meu conforto, essa calmaria que percorre as minhas veias pelas ondas nervosas que tumultuam as suas. Eu mergulho nesse mar, eu me afogo. Se assim se sente mais seguro, se assim ficaremos livres para nos deleitarmos dentro de uma única prisão, te digo que até amanhã serei um soro-positivo como você. Iguais, enfim. Então eu te procuro, ou me procure já. Venha livre. Inteiro. Traga pra mim tudo que vive dentro de você.
Porque eu te amo.
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