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quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A tal da dona Tranquilidade

O problema era o tal do afeto. Todo o resto seria perfeito, não fosse o afeto. A liberdade, a paz, tudo existe sem o afeto, sem a necessidade do afeto. Não há problemas, psicológicos, psiquiátricos, sociais, profissionais, sexuais, não há problemas pessoais sem o afeto. Concluía isso e tentava arrancar de onde pudesse aquela tal necessidade que surgia, impávida e altiva, dos pequenos detalhes de tudo, de todos que conhecia. Era o segredo da felicidade, não havia, ele não enxergava nenhum outro caminho para a maldita felicidade, não fosse o árduo, árido e pedregoso caminho sem a terrível necessidade do terrível afeto.

O prazer explodiria. O prazer se espalharia pelos cantos, preencheria tudo, encheria de cor cada quina, cada escuro. Cada coisa ficaria iluminada pelo prazer, pela sorte, pela vida. Sem o afeto. A água do mar, ele já via, seria mais azul, mais límpida. A grama teria um verde raro, cor de primavera, haveria flores, todas abertas. O ar lavaria os pulmões, umedeceria a garganta, os olhos, a pele, rejuvenesceria a aparência, bonificaria o humor. Não haveria música ruim sem o afeto.

As pessoas, ele olhava o movimento na rua enquanto voltava para casa, e pensava que as pessoas seriam todas amigas umas das outras. Seriam inteiras e verdadeiras. Seriam bonitas. Os moços não se preocupariam em ser casados, solteiros, noivos, os moços seriam disponíveis. Seriam, inteiros, de todos os outros.

O desejo se amplificaria, chegaria ao cume de sua juventude e de sua lascívia. A intimidade, o autoconhecimento, o amor-próprio alcançariam patamares que nem mesmo o pensamento alcançou, por causa do afeto. Ele lembrou do dia que não aproveitou o gosto daqueles pés o suficiente, nem observou com a melhor atenção o percurso daquele suor, ele lembrou do outro dia em que o medo e a timidez, e um vazio, cessaram a sessão da fantasia, planejada há tanto tempo, interromperam o momento e pediram, discretamente, misericórdia. Ele imaginou como seria realizar cada vontade, com um, com dois, com três, com tantos desejasse, todas as situações possíveis, todas as posições, posturas, personalidades que assumiria para si e nos outros. Uma mão firme num dia, mãos atadas no outro. Um beijo compartilhado com desconhecidos, um sexo dividido, consentido e admirado. Um triângulo imposto ou querido. Sem tradições ou barreiras. Experiências, ele pensava, precisava de experiências. Mas ele sabia, pensava, concluía, ele precisava se livrar daquela horrível necessidade. Porque só há vida sem o afeto.

2 comentários:

Thiago Cestari disse...

whitman nunca se casou, e vivia pra cima e pra baixo pegando rapazotes, num brooklin abarrotado de gente... talvez ele fosse bem feliz.

parabéns pelo texto, foi como receber um soco no peito... um tapa de um outro mundo possível.

Humberto Mac disse...

caraio! onde eu assino?

mais um refém da busca pelo afeto. e ainda temperado com um ciúme brutal.