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sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Rafaela

Lembrou daquela uma vez em que nem chegou direito ao portão da escola, foi barrada, acuada, levada pra detrás dos muros. Dois a jogaram no chão, um chutou a sua cara, outro seu estômago, outro pisou a sua mão e ordenava aos berros “Diz o seu nome!”. Falar doía, mas ela obedeceu: “Rafaela”. Os cinco cuspiam, chutavam, socavam, puxavam seu cabelo e insistiam na pergunta. Sem outra verdade que lhes pudesse fornecer, ela dava a única que tinha, e repetia: “Rafaela”. Tinha quinze anos e, com a boca sangrando, o corpo moído, teve a sua primeira vez. Satisfez como pôde aqueles cinco coleguinhas da escola.

Houve outros dias que lhe visitaram a memória naquela noite. O dia, por exemplo, que seu pai chorou enquanto babava de ódio e recusava, gritava que recusaria até a morte pronunciar o seu nome. “Nunca!”, ele lhe mostrava o punho fechado e as pupilas em chamas: “Nunca!”. Saiu de casa sem um abraço.

Um ano depois, aos dezesseis, continuava lembrando, um cliente puxava-lhe o cabelo enquanto metia o pau a seco e sem proteção na sua bunda, e, como todos os homens que passavam na sua vida, ordenava com algum grau de raiva que dissesse o seu nome. “Rafaela”, “Rafaela”, “Rafaela”, ela dizia a verdade, “É meu nome”, “É quem eu sou”, mas ele não acreditava, e perguntou o tempo todo, deselegante. Foi embora sem pagar.

Mais uma vez: cinco homens desceram de seus carros barulhentos e iluminados e a acuaram na parede. Não tinha ali um documento que pudesse mostrar, e novamente foi chutada, cuspida, esbofeteada. Seu nome era indagado inúmeras vezes. “Fala o seu nome, filho da puta!”, “Quer morrer?”. Abandonada no chão, ouvia as risadas. O pouco da visão embaçada, da consciência sangrada, permitiu que identificasse com mais clareza um deles ali. Achou-o tão bonito... Poderia amá-lo para sempre. Como no fundo amava, até hoje, o Daniel, o primeiro a chutar o seu estômago e a gozar na sua boca, aquele dia atrás da escola.

Lembrou do primeiro dia em que vestiu uma frente-única. Sentiu-se tão mocinha, tão bem. Penteou lentamente os cabelos longos, finalmente longos, e passou um batom cor-de-rosa. Sabia que era uma cor suave, tinha medo que seu pai pudesse lhe achar vulgar. Foi a primeira vez que se encarou no espelho e disse convicta: “Rafaela”. Era uma blusinha tão linda, parecida com esta, que vestia hoje. Naquele dia sentiu-se completa, entendeu a importância de qualquer frase iniciada com “Eu sou”. Soube ali finalmente quem era.

Sempre quis voltar a estudar. Abandonou a escola porque era obrigada a integrar a fila, o time errado. Não sabia como se portar no banheiro, era humilhada, e mesmo os professores a chacoteavam com seus sorrisos de canto de boca toda vez que lhe chamavam por um nome que não era o seu. Nosso nome, ela concluía agora, é a nossa verdade. E só nós sabemos a nossa verdade. Ninguém sabe nem a escolhe por nós. Ela informava a todos a sua verdade, mas ninguém acreditava. Insistiam, insistiam, insistiam que ela mentisse, dissesse coisas que realmente desconhecia. Às vezes pensava que até o “Viado filho da puta” com que era chamada revelasse mais que o nome que teimavam que admitisse ser seu. Não importava a circunstância, ela não gostava de mentir.

Quando leu a notícia de que algumas escolas aceitariam um tal de “nome social”, seu coração pulsou como só pulsava quando avistava o Daniel. Alegria e medo. Será que poderia recomeçar? Sem pai, sem clientes, até mesmo sem o Daniel? Quis tentar. Conseguiu uma matrícula e agora estava ali, lembrando de tudo que havia passado, de todos os homens e de todos os professores que conheceu na sua vida. Discreta, esperava pela chamada. A direção da escola lhe garantiu que ali tudo seria diferente, e que a sua verdade seria a verdade perante os olhos de todos. “Inclusão”, “cidadania”, “direitos humanos”, “respeito”, tantas palavras lhe foram ditas, mas nenhuma tão doce e impactante quanto aquela que estava prestes a ser pronunciada pelo professor, no primeiro dia de aula, enquanto lia a lista dos alunos. “Será, meu Deus, será?”, ela mordia os lábios, pálida. Até que enfim ouviu, como lhe soava bonito o seu nome, quando vinha da boca de uma outra pessoa. Preenchia o mundo: “Rafaela”.

3 comentários:

RAI SILVA disse...

CARAMBA UM BELO E COMOVENTE TEXTO SEM SOMBRAS DE DÚVIDAS... RS

Thiago Cestari disse...

me sinto tocado...

flávia coelho disse...

muito bonito