Páginas

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Olhar de mãe



— Não devemos contar. Veja só como estão confortáveis com a opinião de que somos como todo o mundo. Como os filhos que elas não tiveram. Veja só como vivem aliviadas sabendo que seremos uma família, não da mesma exata forma que sonhavam, mas da forma possível e de uma forma correta, semelhante ao que elas acreditam. Não contemos. Tenho medo de que a honra que demoramos tanto tempo a conquistar passe a ter o mesmo tamanho do nosso amor: dois meses. Não posso, e você também não pode, perder esse orgulho suave e discreto que surgiu no peito de minha mãe, e da sua. Ela entendeu decepcionada que sou diferente, mas consegui convencê-la de que minha diferença era um detalhe muito pequeno, tão pequeno que, acabada a decepção, passado o susto, nem se percebia. Prova disso era você, amor da minha vida. Era a minha maturidade, o meu martírio, a culpa e o medo que senti, que eu disse que senti, todo o preconceito que eu disse que vivi, tudo o que me torna adulto, muito mais do que seria se não passasse o que passei, o que passo, o que digo que passo. Era a minha vontade, comum e branca, de ter uma relação estável, duradoura, monogâmica, saudável. Eu não posso ser promíscuo, entende? Não posso ser um cafajeste. Como os sobrinhos dela, os meninos na escola, no bairro, como todo menino normal e livre, que no fundo é sempre um pouco cafajeste, e promíscuo, porque sem amarras no seu corpo e na sua dignidade beija quantas e quem quer, vive a festa que inventa para si, tem a vida descomprometida, quase niilista, a sexualidade anárquica, as mãos e a mente desenfreadas. Todo menino é um cafajeste e um promíscuo, faz parte de ser menino. Até que cresça e se torne um homem menos cafajeste, quem sabe menos promíscuo. Encontre então uma mulher reprimida, ao menos o oposto atraente, e equilibre aquela liberdade despudorada, trazendo a vergonha, o medo e a tranquilidade à relação. Não posso ser um menino comum, esse tipo de comum, afinal eu já disse a ela que eu não era. E ser comum sendo diferente seria o caos no coraçãozinho dela. Imagina eu dizer: Mãe, sou gay e cafajeste. O caos, não é? Então não contemos, não ainda. Ter me assumido por um amor que não durou não valerá a pena, não valerá toda a transformação por que ela passou, por que busca passar. Minha mãe, e a sua também, não entenderá a minha solidão, os vários nomes novos na minha agenda, meus vários novos futuros amigos, todos os outros que virão depois de você. Ouça, eu tenho muito medo de não conseguir um relacionamento padrão, de não conseguir me encaixar no que ela entende, porque eu gosto, hoje eu gosto, de variedade, de liberdade, de diversão. Você é como eu, somos sozinhos, você não foi o meu oposto, não encontramos o equilíbrio. Muito menos a vergonha. Somos, na amplitude da palavra, dois HOMENS. Talvez seja só por hoje ou só você o meu fracasso de uma vida corriqueira, mas hoje é muito importante para ela. Veja como sorri ao lado de sua mãe. Aposto que conversam que são duas mães felizes, com dois filhos tão-bons-meu-Deus-do-céu, um pouquinho só diferentes, protege-eles-meu-Pai. Então pega na minha mão, diz que me ama, sinta ciúmes de mim. Compre uma aliança, bote no meu dedo, diga que não consegue olhar pros lados, que não enxerga mais ninguém além de mim, que é só meu, só meu! Exagera um pouco, fala até em filhos. Na nossa diferença ainda não cabe uma normalidade. Fique um pouco mais, finja, deixemos passar os meses. Só pra que ela ache que somos felizes, como seríamos se não fôssemos nós.

2 comentários:

Thiago Cestari disse...

lindíssimo, fábio, corajoso e honesto!

querem que a gente sinta vergonha de nós, eu hoje quase senti vergonha por muita coisa vivida, mas depois concluí que existir plenamente é sempre mais.

ZG disse...

Estou pra elaborar e te dizer que esse é um texto daqueles que a gente sempre quer escrever e não consegue. Parabéns pela franqueza, fluidez e originalidade. Ganhasses um leitor.