sábado, 5 de dezembro de 2009
domingo, 29 de novembro de 2009
Do começo ao fim
Talvez neste blog não caiba apenas ficção. Talvez eu possa falar um pouco sobre assuntos variados, comentar qualquer coisa. Não sei. Vejamos.
A imprensa já alardeou que esse filme virou cult, tantos os burburinhos sobre ele na Internet. Não havia outra saída: um filme brasileiro a tratar de homossexualidade já é um marco — afinal vivemos num país onde moças de saia curta são linchadas em universidades —, o que se dirá então de um filme que trate de incesto homossexual. A TV e a Literatura brasileiras já abordaram o tema do incesto, quem não lembra d'Os Maias, obra de Eça de Queiroz adaptada pela Globo, com a Ana Paula Arósio e Fábio Assunção, irmãos, se atracando? Mas ali o ocorrido foi uma tragédia, e os irmãos não se sabiam irmãos. Em Do Começo Ao Fim os irmãos se conhecem muito bem, nasceram da mesma mãe (impressão minha ou serem filhos do mesmo pai seria uma polêmica maior?) e foram criados juntos. No entanto, não há tragédias, questionamentos, nada. Tudo é leve, suave, nos despertando para a simplicidade de que as coisas são realmente feitas, quando nos permitimos, se nos permitimos, tal sensibilidade.
O mais novo nasce de olhos fechados, permanece assim por alguns dias, e a mãe não se desespera, sabe que o filho abrirá os olhos “quando estiver pronto”. Ali, segundo o menino, ele aprendeu o que é livre arbítrio. Uma das poucas reflexões que o filme nos instiga, rara cena de instante de crítica. Outra é quando, já adultos e amantes, o mesmo rapaz diz ao irmão que o ama porque “para entender o nosso amor é preciso virar o mundo de cabeça para baixo”.
No mais, a suavidade improvável. A mãe chega a perceber cedo a demasiada intimidade dos meninos, mas decide poupá-los de uma censura. Questionada pelo pai de um deles, argumenta que não gostaria de dizer às crianças que aquilo é ruim. O homem aceita. O outro pai também não se pronuncia, só ao final, bem sutilmente, confessa que aprendeu com a mulher “as coisas da vida”. O único momento tenso do romance passa a ser então a provável e temporária separação dos irmãos, devido a um compromisso profissional de um deles. Os responsáveis pelo filme argumentam que o tema já era pesado demais, e que o possível era dar à história toda a leveza necessária. A crítica não aceitou e avaliou mal o filme, por esse e outros aspectos.
De fato, parece um filme simples demais. Há cenas quase constrangedoras, talvez mais pela limitação das crianças do que pela direção. E a história segue com buracos, situações deslocadas. O primeiro momento de entrega dos moços acontece de repente, quase sem por quê. Mas é uma grande iniciativa. Eu não esperava isso do Brasil, ainda mais se tratando de filme com atores famosos da televisão. Há pequenos pudores, como o fato de os irmãos, tão próximos desde sempre, só se tornarem amantes após a morte da mãe, QUINZE ANOS DEPOIS da época de meninos. Pouco convincente, não? A adolescência, com toda sua explosão hormonal, ali nem existiu, e poderíamos ter acompanhado um pouco mais da presença da mãe no construir daquela relação. Porém o filme para nós, reles soldados pedindo esmola, como já cantava Renato Russo, até é bastante corajoso, com suas cenas sensuais, de nudez inclusive, e beijos sem vergonha nenhuma. Preciso registrar que os pés do Rafael Cardoso (Thomás) são lindos!
Mas o filme adiou sua estreia várias vezes, e surge tímido em meia dúzia de salas, todas na região da Avenida Paulista, cume da civilização do país, onde até se pode andar de mãos dadas, e quiçá dar beijinhos quase apaixonados, sem ser espancado na mesma hora. O que é ruim ao todo, mas ao menos me poupou das risadas que ainda ecoam na minha cabeça, da época em que assisti a Brokeback Mountain num Cinemark lotado. No entanto, o gueto. O público é gay, bem gay, com seu humor ácido que não perdoou uma cena em que, sozinho e desolado, um dos moços flerta com uma mulher. A propósito, por que uma mulher? Para deixar o personagem “quase normal” ou para atiçar o triste e marginal fetiche por um homem hétero, ou que se comporte como tal? Os casados da net, os bródi sussa com suas mina, sarados do jiu-jitsu e do muay thai, os pornôs do “gay for pay”, e até as bichinhas quá-quá com suas línguas afiadas e preconceituosas, prontas a apontar as passivas loucas, que nos respondam.
Quem sabe foi uma tentativa de deixar os dois protagonistas alheios a tudo o que nos é comum. Talvez eles não pertençam a nenhuma categoria sexual, seu sentimento está além de todas essas miudezas classificatórias, e existe não porque são dois homens simplesmente, mas porque são duas pessoas que se enxergam para além do sexo, condição quase etérea que talvez não seja de nossa capacidade compreender.
Creio que meu azedume é insuportável. Eu andava afastado de certas coisas, o que não é apenas bom. Havia me esquecido do quão diversos são os tipos, os perfis, que anos atrás me eram provas contra a tese da suposta minoria. Nada é o que parece, nunca é. Havia me esquecido de que os gays também podem ser atraentes, e de como é boa a suavidade do flerte, do agito, do encontrar-se com iguais, do encontrar-se com desconhecidos. Havia me esquecido também de como não tolero mais algum estereótipo, o deboche pobre, o sorriso raso, a feminilidade tacanha, e de como esse incômodo talvez seja bobo e limitante para mim. Percebi que estou isolado demais.
Pensei que me emocionaria mais, mas ainda assim recomendo o filme. Ele é maior do que este mundo em que estamos presos. O amor ali é tão delicado, e é apenas amor, e mais nada. Um universo sem culpa, crimes, pecados. Tudo é observado sob o olhar de uma mãe que conhece os seus filhos e sabe como sua relação é limpa e sincera. Uma analogia a tudo o que é possível ser considerado amor. É uma história elevada, para elevados. Não haverá como discuti-la entre questões primárias, da educação e cidadania básicas, e que ainda nos são presentes.
Depois, a realidade. A buáti na esquina seguinte, são paulinos discutindo mais adiante, e os jornais, em notas de divulgação, fazendo questão de deixar claro que os atores são heterossexuais.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Extrema Unção
O cume de minha vida ateia foi eu ter chamado um padre para me confessar a horas de minha morte. Eu, que morro daqui a pouco. A carícia do destino foi me ter enviado um homem jovem e bonito – meu pau enrijeceria se eu tivesse força. O padre ficou bem perto de mim, um macho respirando no meu cangote. Não ouvi o que disse, mas comecei a falar: Confesso minha covardia de viver, meu medo, minha fraqueza, me arrependo não ter dito que amava minha mãe tantas vezes ela precisasse, me arrependo não ter gostado tanto de mim, não ter valorizado o suficiente talvez as amizades, os amores, as conquistas. Confesso minha estupidez de não conseguir sequer saber se fiz tudo o que podia, por mim e pelos outros, se minha vida foi plena, ou se tive um bom caráter. Além disso, não pequei.
sábado, 31 de outubro de 2009
Ela
— Vê mais uma bem gelada — disse o tal de cabelo preto e gravata. E logo chegou a vigésima quinta garrafa de cerveja, posta na mesa cuidadosamente pelo garçom, cujo rosto deteriorado pelo cansaço não significava nada àquele grupo de irmãos (Assim é que chamavam uns aos outros: — Fulano é meu camarada, meu irmão).
O japonês era o que se mantinha mais lúcido; sabia que chegar em casa fedendo complicaria sua vida com a patroa e não conseguiria dormir o suficiente pra trampar no outro dia. O outro, loiro de cabeça raspada, entendia-o muito bem, vivia coisa parecida, mas quem enchia o saco era a mãe. O negro não; era dono de si, dono das suas satisfações, não as dava a ninguém. Parecia adulto, consciente de cada gesto, cada palavra. Assim como o ruivo de sardas, solteiro, livre do aborrecimento das mulheres.
Os cinco bebiam. Enchiam a cara. Por prazer, porque era isso que restava.
— Meu, faz tempo que não fodo. Tô quase apelando pra punheta — disse o ruivo de sardas.
— Pega uma puta, caralho — sugeriu o japonês, sem perceber quem tinha se queixado.
— Qual o mal de bater uma? Tem que bater uma todo dia. Ajuda a viver — filosofou o loiro de cabeça raspada.
— Eu sei — disse o ruivo. — Mas sempre achei que bater punheta era se confessar sem mulher.
— Mas você está sem mulher — observou o negro, já entediado. — Ou você finge até pra si mesmo?
— Faz o seguinte: vai no banheiro e resolve isso. Só lava a mão quando voltar. Odeio pegar, mesmo indiretamente, no pau ou na porra dos outros — disse o japonês, reparando em como o de gravata olhava a barba do garçom que limpava a outra mesa.
— Melhor — concluiu o engravatado, desviando os olhares que percebeu terem sido notados —, vai pra casa. Ficaria incomodado de estar próximo de alguém que acabou de acariciar um pau que não é o meu.
Todos concordaram. O ruivo largou uns trocados na mesa e partiu, cambaleando e se tocando, rumo ao carro. Livres de perturbações, o resto dos irmãos discutiram futebol.
Foi quando ela chegou. Exuberante, não havia quem não a notasse. Tudo ficou assim um pouco mais iluminado. Cabelos na cintura, vermelho-fogo, vestido justo, azul-céu, sandálias prata de salto muito alto. Sem batom, apenas com um brilho nos lábios. Unhas sem nenhuma pintura. Pernas magnificamente torneadas. Seios, durinhos. Ela queria usar o banheiro — “toalete”, na sua voz estranhamente suave. Perguntou a direção ao garçom e caminhou sem olhar pros lados até a fila de meninas que aguardavam a vez ajeitando os cabelos e cochichando sobre os moços do bar. Ele, após dar a devida informação, sorriu malandro pros irmãos.
— É homem. É um bicha! — disse o de gravata.
— Que nada! Gostosa desse jeito? — indagou o negro.
— Sim, é uma bicha! — retrucou o irmão de colarinho branco. — Uma merda de uma traveca! Não sei por que não matam essas porras!
— Um traveco, meu irmão — corrigiu o japonês —, não dê o gostinho de chamá-lo no feminino.
— Meu, não vê que ela tá na fila do banheiro das mulheres? — insistiu o negro.
— E você acha que ela ia dar bandeira? — continuou o de gravata. — Trancada numa cabine, ninguém vê se ele mija em pé ou sentado.
— Tio, compra uma flor? — um menino magro, pardo, feio e sujo perturbava os irmãos. Carregava uma cesta cheia de rosas, algumas brancas, outras vermelhas.
— Hoje não, garoto — respondeu seco o irmão de gravata.
— Vai pedir pra sua mãe trabalhar — disse o negro. O menino se afastou, tão apático quanto quando se aproximou.
— Nossa, como fede! — observou o irmão de cabeça raspada.
— Olha, o veado entrou no banheiro — avisou o japonês.
— É mulher! Eu já comi — confessou o de cabeça raspada.
— Comeu? — se surpreendia o negro. — Viu a boceta?
— Vi — afirmou implacável o cabeça raspada. Dentro de si, a dúvida: gostava dos rabos, e às vezes a bebida não deixava ver se tinha uma boceta ali perto. Mas não era possível, era a porra de uma mulher.
— Então é puta — concluiu o negro. — Bonita desse jeito, só pode ser puta.
— Pena que o truta foi embora — disse o oriental, referindo-se ao brother ruivo. — Uma puta dessa ia aliviar bonito as necessidades do cara.
— Não acredito que seja mulher — disse o de gravata ao de cabeça raspada. — Vai lá e comprova. Se você realmente comeu aquilo ali, aposto que tava louco e meteu no cu sem perceber.
— Beleza — concordou o cabeça raspada, levantando-se e indo com pressa em direção ao banheiro. Mais do que ninguém, precisava resolver aquela história.
— Mete logo a mão entre as pernas dela — ordenou o japonês. — Se for mulher, é puta, então traz pra gente.
— Mas se sentir as bolas — continuou o negro —, põe pra correr e avisa pra não aparecer por aqui.
O loiro de cabeça raspada aguardou nervoso ela sair do banheiro. Quando saiu, segurou-a pelo braço.
— Ei, boneca!
Ela o fitou. Séria, como se o odiasse, não disse uma única palavra. A força e a raiva que vinham dos seus olhos barraram qualquer som que o loiro de cabeça raspada pudesse emitir. Atônito, ele só pensava em como aquilo, em como ela era bonita, como seus olhos eram bonitos. Cinzas, talvez roxos. Tantas cores vinham dela: seu vestido azul, seus cabelos vermelhos, seus lábios brilhantes, seus olhos... tanta luz. Soltou-a.
— Desculpe.
— Tia, compra uma flor? — o demoniozinho magro, pardo, feio e sujo outra vez.
Ela abaixou-se, ficou à altura do menino. Acariciou-lhe o rosto, beijou-o com uma ternura maternal. Pegou duas rosas, uma branca e uma vermelha. Levantou-se, fitou o sujeito sem cabelo novamente. Parecia mais alta, a olhá-lo de cima.
— Pra você.
O loiro de cabeça raspada olhou para as mãos dela; entregavam-lhe a rosa vermelha. Sem saber por quê, aceitou-a.
Ela fechou os olhos e cheirou profundamente sua rosa branca. Aberta, com grandes pétalas, tão alva que passava a ideia de coisa limpa. Casando perfeitamente com suas mãos, nuas de pintura.
— Natasha! — gritou ao longe uma voz rouca. E sem encarar outra vez o sujeito que incomodava, ela foi embora sem olhar pra trás, sem olhar pros lados.
Tudo ficou assim um pouco mais escuro. Na luz falha do bar, a rosa vermelha parecia ter manchas esquisitas, parecia um tanto podre. O irmão de cabeça raspada jogou-a no chão. Tentou lembrar da voz dela, no momento em que lhe ofereceu a flor, mas não conseguiu. Sentiu-se um tolo, incapaz de compreender qualquer coisa, até a básica diferença entre os seres.
Ao vê-la passar, o irmão de gravata não titubeou:
— É traveco, um pervertido passando por mulher.
— Ou mulher, tão gostosa que parece um traveco — ironizou o japonês.
— E aí? — disse o negro ao de cabeça raspada, vendo-o chegar — Conferiu se tinha bolas?
— Não. Não consegui.
— Como não? — indignou-se o de gravata. — Não viu se era traveco? É claro que é, meu! E a gente querendo passar pro sardento...
— Logo ele que odeia essas merdas — disse o negro.
— Não odeia mais do que eu — garantiu o japonês, fitando os olhos do de gravata.
— Mas você não percebeu, assim de perto, que nada ali era natural? Peito, bunda, cabelo, até os olhos, daquela cor esquisita, falsa? — continuou o negro. — Aliás, foi ela quem você comeu?
— Não sei. Não a reconheci, mas achei que me olhou como se me conhecesse. Tinha tanto ódio nos seus olhos... E ninguém odeia quem não conhece. Ela me olhou de uma maneira... Eu não entendi o seu olhar. E fiquei sem reação por causa da força que ele tinha. Uma força que não sei se é boa, não sei se é má. Uma coisa tão esquisita. Sabe, não sei quanto ao peito, quanto às bolas, mas seus olhos, eles com certeza... — hesitou, mas admitiu — eram naturais.
Não querendo entender nada, aquele papo besta, o de gravata não pensou duas vezes:
— Ô garçom, mais uma breja! Pessoal, falando em bolas, alguém viu o penalty que aquele filho da puta perdeu?
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Dois irmãos
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
a distância
como você dorme?
pra que lado você olha?
quem você enxerga?
de que jeito segura o talher,
de que maneira suspira de saudade,
que poesia te estupra?
o que te faz rir,
te deixa à flor da pele,
qual a bagunça dos seus lençóis?
como é a água que te refresca
a garganta, o corpo,
essa vida inteira?
que cores chegam aos teus olhos,
que sabores te envolvem,
que opiniões te absurdam?
como é ter essas mãos,
esses olhos,
suas canelas sem vergonha?
me diz devagar,
suave,
machucado:
como é ser tão lindo assim?
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
O abismo
Foi assim que se sentiu naquela tarde ensolarada de domingo. Luz não faltava. A ninguém. O abismo era tudo aquilo que explodia dentro de si, e que não podia controlar. Uma vez aceito o desafio de tocar os limites do seu afeto e do seu desejo, ele não podia voltar atrás. Já estava lá, naquele quarto, com aquele desconhecido amarrado na cama, sem roupa alguma, as pernas separadas, erguidas, e tudo aquilo que lhe diminuía como homem exposto, à espera. Ele olhava bem aquele corpo na cama, e pensava como reagiria ao toque que ganharia. Seu coração já estava acelerado, a sua pele, vermelha, as suas mãos, frias. Era desespero o que sentia, era pavor, e quase um ódio.
Nesse quase é que abriram a porta. Seu Mestre chegara. Pelo menos o homem a quem acostumara chamar de Mestre até aquele momento. Seu Mestre, seu amante, seu amigo, ele entrou no quarto calmamente, não tremia, não suava, até sorria, como se nada o abalasse, como se não tivesse dúvidas nem medo. Tanta serenidade machucava aquele menino, agora um indefeso menino, que tinha aceitado arranjar um corpo novo para o seu amante, cansado da mesmice, da rotina, cruel assassina das relações. Aquele menino havia aceitado conhecer o abismo, mas o seu Mestre era apenas serenidade.
O Senhor e agora Dono daquelas duas vítimas no quarto beijou a testa molhada do seu servil menino e cuidou de observar o desconhecido na cama. Reparou nos nós, na qualidade da corda, na venda que impediria a visão por toda aquela tarde e na mordaça, um anel que mantinha a boca aberta, o suficiente para que coubesse um pênis ereto. Reparou também se o jovem era bonito, a seu gosto, e se estava limpo. O Mestre não suportava sujeira.
Mas tudo ficou um pouco mais sujo, ao menos para o menino escravo que presenteava o seu amante Senhor. O ciúme era uma bobagem, o Mestre lhe dizia; uma bobagem que doía, o menino pensava. Mesmo assim, para o bem da relação, era preciso tentar, pelo menos tentar, ver como seria, ceder às necessidades de seu Mestre, por mais tolas que lhe parecessem, tolas e nocivas. O Mestre inclusive dera permissão ao menino para que conhecesse outros homens (não outros Senhores, claro), mas o menino não precisava daquilo, recusava a liberdade. O que o jovem servo precisava era conceder as brechas que seu Mestre queria, para que o elo entre os dois continuasse. E com todo o sol que invadia aquele quarto, a luz faltou. Talvez o momento em que se fecham os olhos para pular no abismo.
Obedecendo a uma ordem, o menino começou a acariciar o pau do seu Mestre sobre a calça, enquanto ele olhava o terceiro ali amarrado. O escravo ajudava o Senhor a se excitar com aquela imagem. Depois fez mais: participou de cada toque, cada movimento, o menino conduziu o tempo todo o corpo do Mestre ao corpo na cama.
Era só fogo dentro de si. O menino tremia, fraquejava, dilacerava-se a cada gemido de prazer do seu Dono. Ele não entendia tanto êxtase, embora o seu corpo algumas vezes também expusesse alguma excitação. Sim, o menino estava excitado, ao mesmo tempo em que tinha vontade de chorar. O menino sentia raiva do seu corpo, porque gozar a dor que vem de fora, isso o seu Mestre tinha ensinado, mas como gozar a dor de dentro? Uma tempestade de dúvidas lhe invadiu a alma. Um enxame de “por quê?” e “para quê?” lhe picava a pele. Talvez fosse o momento de uma escolha difícil, contraditória ao caminho que escolhera. O prazer ou a dor. Seu limite havia chegado, era preciso escolher.
E ele não escolheu. Agüentou o que ainda havia ali. Foi obrigado a lamber na cara do desconhecido o prazer viscoso do seu Mestre. Foi obrigado a se masturbar enquanto fazia isso e a gozar vendo seu Mestre tocando aquele corpo. Fez. Nem sequer reclamou.
Anoiteceu. O desconhecido havia deixado o quarto há poucas horas, e o menino escravo esperava, sentado no chão, escorado num canto da parede, o Mestre terminar seu banho. De volta, o Senhor agachou-se próximo ao menino, fitava-o, tinha no rosto uma expressão diferente, não era aquele sorriso de prazer. O Mestre estava sério, ponderava e, o menino pensou, parecia trazer dentro de si enfim uma dúvida. O Dono daquele garoto sabia o quanto significava aquele momento, o quanto tanta coisa dependia daquilo que havia acontecido e, tentava perceber, torcia para que descobrisse um olhar de afeto, de satisfação naquele escravinho de que tanto gostava. O menino buscava o oposto, buscava um “basta, isso não acontecerá mais”, porque “esse prazer doentio me machuca”. Ninguém encontrou nada e ambos sentiram na espinha o frio torturante da incerteza. Estavam diante de um abismo, nus, e talvez as coisas não tivessem mais o mesmo significado. Mas ainda era preciso decidir se dariam, e qual seria, o próximo passo.


