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domingo, 25 de dezembro de 2011

A Data


Mais uma vez me vejo nesta sala, cheia de mulheres abandonadas, mais uma vez abandonada a minha sorte de mulher extremamente livre. Com a consciência tranquila e a alma perturbada. Difícil não concluir que minha decisão não tenha sido a mais certa, mas a proximidade da Data e a repetição das situações me deixaram inclinada a pensamentos de que haveria outra escolha, se quisesse. Porque poder sempre se pode. Assim dizem.

Desde criança percebi que seria diferente, que nutria uma afinidade além do comum com os meninos. Nunca tive aquela aversão pueril aos diferentes, ao sexo oposto, nunca enxerguei os meninos como a coisa mais nojenta e bruta que poderia conhecer. Pelo contrário, entendia suas opiniões, seus gostos, concordava com a maior parte de suas atitudes, sua posição perante a vida. Admirava sua força, seu desprendimento, sua liberdade. Sabia que o mundo era deles. Percebi não muito tarde que tinha uma “mente masculina”, embora passasse longe da possibilidade de ser lésbica. A afinidade e a admiração que eu sentia pelos meninos era acompanhada sempre de uma enorme atração física, uma vontade descabida de tê-los para mim. Eu adorava tudo o que eu tinha de feminino, compreendia toda a grandeza emocional de ser mulher, mas não conseguia dar o mundo aos meninos, deixá-los donos de tudo, tão pouco do meu desejo, do meu sexo. Da minha liberdade de sentir, de querer, de viver. O mundo também era meu.

Ou na verdade não era, e cresci sob a sombra de julgamentos, sob a permanente possibilidade de ser usada e descartada, de ter meu caráter condenado, de nunca deixar de ser um buraco disponível. Ainda que um belo buraco.

Vivi sozinha de amigas, poucas se davam ao desfrute de serem percebidas com coisas em comum comigo, por mais que até admirassem meu jeito, minha conversa, a dificuldade que eu tinha em ser atingida pelas humilhações do preconceito. Por outro lado tive bons amigos, rapazes que não demoravam a perceber que eu não era necessariamente frívola, que minha liberdade não era diferente da deles, maior ou menor, que eu era um buraco que falava e pensava, muito. Pena que ainda encontro dificuldades de ver nos olhos deles confiança para o amor, para a entrega. Talvez porque mesmo eu não saiba se teria as respostas do que eles indagam.

Ser tão livre quanto um menino me permitiu, agora adulta, ceder às molecagens do Jezreel. Nossa relação antiética tem tentado conhecer os extremos, analisá-los, julgá-los, concluir se têm mesmo o peso que o senso comum argumenta. Com uma escala evolutiva interessante, nossa relação passou por diversos momentos bem distintos. Conheci ele bem jovem, com quatorze ou quinze anos, nesse trabalho “socioeducativo” em que caí de paraquedas. Me atanazou a vida toda, grosseiro, agressivo, instigava em mim as aversões que raramente tive. Passei por diversas lições pedagógicas para conseguir suportá-lo, o que nunca fiz, até que ele simplesmente sumisse da minha rotina. E surgisse novamente, eu já desmoralizada pela regra de nunca ter envolvimento com educandos, com toda sua empáfia, mas agora muito mais discreto, e esbelto, aos dezessete anos, expondo sem dó seus atributos de quase adulto, e sua coragem, que me acua, seduz e chantageia.

“Você também gostosa” foi a primeira coisa que me disse quando eu observei que ele tinha crescido. Quando pedi respeito, disparou que sabia do Eliabe, e também do Felipe, e do Gabriel. E que em dez minutos eu o encontrasse no banheiro para chupá-lo senão ele contaria a todos da instituição que eu havia “dado” pra educandos menores de idade. Fui lá e chupei.

O cretino exigiu que eu engolisse. Até pensei depois numa maneira de resolver aquilo, de interromper aquela situação que com certeza se agravaria, mas a forma como ele agiu, e falou, e o pau dele me deixaram com uma pequena vontade de ir adiante, de deixá-lo me conduzir, e aproveitar. Ele era só um moleque a fim de sexo, agora alto, encorpado, com a mesma voz grave e autoritária, querendo meter na gostosa que sempre o repreendeu. Eu era só uma mulher, que se permitia se submeter às ordens do próprio desejo, há tanto tempo tão livre. Cedi, como sempre, às minhas pequenas vontades.

Ele tinha mudado. Estava voltado agora bem mais às mulheres, praticava e desenvolvia seu talento para caçar e matar a fome. Tão ousado quanto irresistível, uma perdição para mulheres como eu. Ele me chantageava e ameaçava bastante no início, devido a minha resistência, a minha ciência de saber que aquilo poderia ser muito perigoso, poderia me levar a situações irreversíveis. Ficar à mercê de um garoto de pau duro sem nenhum caráter era um empurrão ao precipício. Mesmo que eu alegasse que tudo que vivi não teve nada de ilegal ou imoral, que foi tudo consensual, que eu nem era tão velha, e que eu era sobretudo uma mulher, incapaz de forçar um homem a qualquer coisa, e que não havia lógica em dizer que fui penetrada a contragosto de alguém, e o que havia vivido, por exemplo, com o Felipe, fora uma relação estável, afetiva, duradoura... “Ele sabe que foi corno?” – interrompeu debochado. “Eu sei tudo isso, eu sei que cada um meteu porque quis, e sei que você é só uma vagabunda, mas é um escândalo, não é?”. É. “Além do mais sei que agora você com o Charles, e você já fez ele de corno comigo, e vai continuar fazendo. Você vai dar pra mim sempre que eu quiser”. Era isto no início, depois foi ficando claro que já éramos amantes, cúmplices, até amigos...

Nem nos víamos com tanta frequência assim, ele era de fases. Passava dias, até semanas sem me procurar, depois ligava e exigia que eu dissesse que eu “estava louca pela pica dele”. Gostava que eu pedisse “por favor” para ele vir até em casa me comer, e muitas vezes queria que eu agradecesse “por ele ter me comido, e me enchido de porra”. Como com o tempo a chantagem dele passou a me excitar, muitas vezes eu provocava, dizia que o pau dele era muito mais gostoso que o do meu namorado, que a porra dele era muito mais gostosa. Ele sorria convencido, certo de si, de que era verdade, e eu sempre me excitei com sorrisos de vaidade. Não resisto a eles.

Outo dia ele foi um pouco além do permitido. Disse que tinha visto uns vídeos, perguntou se eu aguentaria duas picas de uma vez, “uma no , outra na buceta, claro”. Respondi que não sabia (menti), que nunca havia feito (menti). “Porque tô a fim de meter em você junto com algum amigo meu, chamei o Miguel, e quero saber se você pode hoje depois do trabalho”. Aquilo foi um baque. Miguel? Duvidei que ele já tivesse colocado alguém no jogo, dito tudo, isso rompia com nosso trato, mas ao mesmo tempo pensei na situação, de como isso seria “safado”, mesmo que ficar refém de dois agora fosse impensável. Olhei bem pra ele, queria acabar com tudo, e saber por que o Miguel e o quanto ele sabia, desde quando, e quantos mais sabiam, porque o Miguel era meio amigo do Charles, irmãos de outros garotos com quem trabalhava, tudo aquilo era um absurdo, mas eu apenas vacilei: pode ser. “Beleza, acho que você vai gostar da pica dele, a gente já comeu outras vadias juntos, mas acho que pra você não ficar muito cismada vou falar pra ele usar a borracha, só eu que vou esporrar dentro. Mas tô decidindo ainda. Porque seria legal você levar no e na buceta”.

Levei no cu e na boceta. Na boceta eu levei do Jezreel. Fiquei de dar um dia pro Miguel sozinha pra ele gozar na boceta. Mas foi um péssimo dia, ou melhor, uma péssima ideia. Tenho pra mim que foi ali, o Jezreel quase sempre ejaculava na vagina, como quem procurasse por problema, mas sinto que não foi em outro dia, mas naquele. Foi um dia com jeito de importante. Porque não era pra ter acontecido, nada aconteceu como previsto, não era pra termos envolvido o Miguel, não era pra ele não ter usado camisinha, não era pra eu ter deixado que não usassem, pois eu não estava num “bom dia”, e não era pra ter sido o Jezreel na boceta. É que o Miguel não conseguiu segurar, e gozou antes que trocassem.

Eu continuava errando. Minha cabeça de homem erotizava essas besteiras. Mas eu sabia que meu corpo era de mulher. Gostava de esquecer, mas sabia. E sabia que uma mulher é sempre uma mulher sozinha. Ainda mais grávida.

Eu não me prevenia o suficiente. A sorte é que dessa vez o Charles era um namorado maravilhoso e sensato, mesmo do alto dos seus dezenove anos, era mais sensato do que eu, ou talvez soubesse a namorada que tinha, já que estou com a sensação de que perdi o controle de tudo, não tenho mais a minha vida nas mãos. Ele passou a se prevenir por conta nas últimas semanas, coincidentemente depois que, sem tempo de um banho, não tive como não evitar que ele me chupasse momentos depois de ter transado com o Jezreel. Mas eu não tinha o mesmo cuidado. Sabia que estava vulnerável e, como uma adolescente (talvez seja isso: tenho a cabeça não só de homem, mas de um homem adolescente), permiti que meu parceiro fizesse o que queria. Quer dizer, entre o Charles e o Jezreel surgiram outros, que Jezreel nem sonha, mas só ao Jezreel eu dizia sim, simplesmente. Eu gostava de dar poder a ele.

Agora estou pensando que espaço deixo ao Jezreel na minha vida de hoje em diante. Não sei se há como interromper o nosso jogo, se ele nunca será interrompido, mas minha vontade é que tudo acabe, como fiz acabar essa remota possibilidade de ele ser pai do meu filho. Porque tenho certeza de que ele não seria como os outros, ele se soubesse exigiria ser pai, exigiria ostentar a minha barriga e depois a criança, ainda que por alguns meses apenas. Li outro dia uma matéria que os jovens atuais enxergam a gravidez como uma elevação do status social, as meninas tratam como se fossem mais mulher que as outras e o meninos como prova de que são viris. A matéria alertava para a distorção de valores, alarmava que parte das adolescentes engravidavam porque queriam, planejadamente. A barbárie. E Jezreel eu sabia fazia parte desse grupo, e ainda era evangélico, e a religião só surge nesses momentos. Ainda tiraria um sarro: “quando vai contar ao seu namorado que grávida de mim?” “Quero estar junto pra ver a cara dele, ou se quiser eu mesmo digo”.

Não. Não seria o Jezreel o pai do meu filho. Eu não iria apresentá-lo a minha família, aos amigos, aos vizinhos, eu não iria olhar para aquele garoto estúpido, vulgar, desarranjado, imaturo, com um péssimo gosto musical, e até meio feio, com todos aqueles amigos idiotas, e saber que carregava em mim um vínculo com ele para sempre, fosse um filho ou um segredo. Para sempre é tempo demais. E Jezreel é só o que eu guardo numa caixa dentro do armário.

Para ele eu dou um tênis. E um tempo. Alegarei cólicas, uma virose, não sei, algo que o afaste um pouco da minha cama ao menos. Ele e Charles. Ele e todos. Preciso me refazer, me repensar, preciso concluir que sou uma mulher, embora isto hoje esteja tão claro que queima as minhas vísceras. Meu útero remoído grita que eu sou uma mulher, que eu me lembre mais uma vez que eu sou uma mulher. Só uma mulher. Que uma mulher tem um compromisso inadiável com o próprio corpo. Com a vida.

Hoje faz muito sol, o céu é muito azul. É tudo muito quente.

Muito poucas vezes ele me pedia, algumas até discretamente, por dinheiro, ou presentes, como andava fazendo nos últimos dias, devido à iminência do Natal. Eu dava sempre, um trocado ou um pouco mais do que isso. Agora ele queria um tênis. Eu até então não sabia se daria, não gostava de dar nada que custasse, sei lá, mais que cem reais, para que nossa relação não ficasse ainda mais perigosa, mas o momento pede. Nossa relação ultrapassou todos os perigos. Logo que sair daqui passo no shopping. Vejo um modelo bem caro e compro. Dou um beijo nele e aviso que preciso me afastar. Um pouco só. Ele deve protestar, dizer que não abre mão de me comer antes do Charles, de me chupar inteira, a xoxota, os bicos dos meus seios, de beijar a minha barriguinha... Que esse é um presente de Natal digno. Precisarei de mais essa força, pra superar essa distância entre o que ele tem de homem e eu de mulher. Pra superar essa liberdade que escolhi, de ser sozinha, de ter o mundo pra mim. Pra não jogar a vida na cara dele: Digno? Como presente de Natal, te digo: acabei de abortar o seu filho.

(de Paloma, um anseio)

domingo, 20 de novembro de 2011

Todo mar é sujo

Porque azul é o longe.

As águas quando chegam
chegam marrons
quase em lamaçadas

Não existem peixinhos, flores ou oferendas
o que o mar esconde são feras
e alimento de feras

Nenhuma onda é boa, bela ou fraca
porque toda água afoga

O que vem do mar e toca a pele
não relaxa o corpo,
se não perfura, arranha a alma

Porque o mar que transforma não é calmo
nem limpo

São falsas as águas tranquilas:
será sempre violenta a praia viva

Porque harmonia só tem aquilo que não pulsa
e acalma, pondera
só as paisagens estáticas trazem verdades paradisíacas

mas não se molha os pés com fotografias.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

diante da luz e do movimento

[escritos perdidos em qualquer data do passado]

A vida passa um tanto rápido, com tanta pressa que impede que o que escreva seja mesmo a última novidade. Ontem faz pouco tempo, apesar de querer que já fosse uma memória perdida. Mesmo tendo de cumprir planos, respeitar a ordem dos pensamentos, mesmo passando por cima de ontem para concluir um tempo que ainda não foi escrito, um tempo antes de ontem, preciso dizer que ontem eu dancei muito e senti os sons entrarem em mim como faz tempo eu não permitia que acontecesse. Dancei dentro de uma salinha escura, perdido ali num espaço vazio, vendo à frente um outro espaço, cheio de luzes e movimento. Pensei que alguém pudesse surgir no meio da luz e do movimento e entrar na sala escura onde estava, trazendo uma faísca qualquer que rompesse o que eu no fundo oferecia para ser rompido. Ninguém apareceu.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

À beira do íntimo

Havia dois copos de sucos na mesa, e um sol lá fora. Era uma tarde simples. Os dois procuravam as melhores palavras, mas não conseguiam dizer nada em meio àquela conversa toda. Não conseguiam acabar os assuntos, não conseguiam deixar de começar outros, todos pouco importantes, atrasos de umas verdades que ambos ainda decidiam se de fato conheciam e se valia a pena revelar.

Tentavam julgar a intimidade. Tentavam, não, julgavam. Negavam-na com cada dúvida, cada hesitação. Intimidade era uma palavra grande, melhor não pensar nela. Os assuntos então continuavam a acabar, e a recomeçar. Traquinagens de infância, filmes, sortilégios, estampas, cores, e o clima, e o tempo. Tudo era um não assunto, uma não conversa que se esticava. Com um fim conhecido, só mesmo os copos de suco, e o sol lá fora.

Refletiam ao menos. Olhavam o movimento dos dedos, de um e de outro, pensavam sobre tudo o que falariam, caso falassem, mas não falaram. Tanto pensamento que virou uma conversa comprida, pra dentro, trazendo as quase mesmas emoções como se pronunciassem pro outro tudo o que diziam a si, os dois, ali, agora sem perceber, em silêncio.

Tentavam se concluir. Passar adiante as intimidades. Que a vida do sexo nos banheiros, nos cantos dos clubes, nos bancos dos carros, nos minutos corridos dos motéis, às vezes tornava um pouco tenso o que se distanciasse demais daquele contexto. Um olhar, um toque mais fundo, um beijo sem pressa, que vai conhecendo as carnes, as curvas, as quinas, os espaços, as pausas, os limites do íntimo, pode paralisar um corpo antes afeito dos mesmos carinhos. Assim mesmo. Paralisar.

Que surgiram pequenos medos, do próprio corpo, da própria higiene, de uma situação nova ligeiramente comum e bizarra, e íntima, que não se fala, mas se lida sempre. Ah, um corpo nu desarmado numa cama que não é de motel, num escuro que não é da rua, num frio que não é dos becos – o que fazer longe da casa que se conhece?

Que muitos anos passaram e moldaram seus retratos, que ora revelam traços inconvenientes, ora fardos que não se escolhe, ora ocultam todas as possibilidades que, sim, podem existir. Às vezes até mesmo querem que existam.

Que o medo existe, o ciúme, todas as dúvidas. Você não se importou mesmo com aquele beijo? Aquela noite? Com o que sabe sobre mim? Com o que não sabe? E o que faz quando é distante? Você se afasta de mim? Havia um mergulho nas conclusões que tumultuavam todas as palavras, todos os olhares, opiniões que apontavam agora uma melhor alternativa do esfriamento, do afastamento... Não deixemos que a intimidade chegue e bagunce estas não oportunidades que nos damos. Opiniões que apontavam em seguida uma melhor alternativa do esperar mais um pouco, fiquemos assim calados, você do meu lado, sem falar, sem pensar, quase não vivendo. E depois apontavam uma outra melhor alternativa de viver sem muito blá-blá-blá, de assumir o que já é, que tem sido, o que somos, e com Bethânia: Então não fale nada, apague a estrada que seu caminhar já desenhou.

O suco findava dos copos, o temor era crescente. Que fazer de uma mesa vazia, de copos vazios? Pra onde iriam, que decisão tomar? Adiaram um pouco o sugar dos canudos.

Beijarem-se entre outros, após outros, horas seguintes, no dia seguinte, não era exatamente uma alternativa. Rótulos, compromissos, promessas, convenções, o que haveria de tão errado ou tão certo em optar por aquilo que, talvez – novamente se metiam às conclusões –, já existisse? Um dos dois calculava a liberdade. Outro cantarolava. “Sermos dois e sermos muitos”... “Nos sabermos sós sem estarmos sós”... Bethânia que se calasse um instante.

O amor talvez fosse mesmo uma palavra de luxo, como dizia aquele tal poema, mas os dois se estreitavam numa vontade de serem íntimos. De meterem fundo a mão nas tripas do outro, e retorcerem toda vida que encontrassem. Uma violência a implorar por reciprocidade. Os dois se apertavam na catástrofe de já serem íntimos. De estarem a um triz um do outro.

Deixa eu te falar das minhas inseguranças de adolescente, do que me faz tenso e sentir frio. Deixa eu te falar da minha falta de jeito na tua cama, do labirinto que me é as tuas cobertas, esse vulto de monstro que é o teu cheiro de casa, esta tua pele à luz do dia. Fica mais um pouco se eu falar, se eu te ouvir? Ou teu alcance às minhas carnes será o nosso fim?

Seguravam as palavras, mantinham a vida nos dentes. Uma úlcera se anunciava, mas fazia sol ainda. Queriam, mas não deixavam, não sabiam bem o quanto queriam que escapasse o que significavam um ali, diante do outro.

Deviam mesmo revelar tudo, encher de pesares aquele dia simples? Pesares? Dizer as coisas até poderia abrir os caminhos, sossegar as costas, mas só se a intimidade fosse esperada, querida, trabalhada. Poderia ser que só com intimidade fosse possível um conforto, uma felicidade. Só um passo a mais. Mas só se houvesse tempo para a intimidade. Essa última coisa que se consegue de alguém.

sábado, 11 de junho de 2011

Dois Senhores, dois escravos.

As janelas do teu quarto estavam fechadas quando eu cheguei. Não havia luz no teu quarto e eu me perguntava por que teus olhos me pareciam tão negros. Tu de joelhos, subjulgado, a pele molhada, tu transbordavas naquele chão e eu não sei o que se afogava, se o teu orgulho, ou teu desejo. Eu não sei o que se salvava. Tua mente me era uma bagunça, e a tua vida, uma ofensa. Eu procurava tua força nos teus músculos, todos despejados, procurava nas tuas mãos, quentes, cheias de calos, na tua boca, no teu sexo transtornado, eu procurava a tua força para encontrar a minha dignidade, mas não sabia se encontrava, se enxergava, a tua verdade me cegava. Era demais abandonar a minha fraqueza para reconhecer a tua. Era demais olhar as minhas mentiras para compreender as tuas. Por que o teu corpo me pedia isso? Por que a tua vida me jogava na cara os longos caminhos para chegar à minha felicidade? Por que simplesmente tu não estás pronto? Por que derrubaste os teus pilares? Acreditas que os meus preconceitos desaparecerão recolhendo os teus cacos? Por que inferno tu não és uma resposta?

Caminhei tanto até este deserto e te encontro humilhado? Te encontro nu? Te encontro fraco. A quem te submeteste? A quem te entregaste? Quantas vezes fizeste isto? Eu procurava dentro de ti o meu senhor, eu desejava que tua mão me conduzisse, que tu fosses somente uma ordem, mas como, me diga, me explica aí ajoelhado, me explica aí machucado, me explica aí possuído, por favor só me diga como eu me submeto a alguém que se submete? Só me diga como eu respeito a força de um fraco, se fores fraco. Teus olhos escurecidos não me dizem se choras, se pensas, nem se me dirás a verdade. Mas chamas o meu nome, não me dá detalhes, só chamas pelo meu nome demonstrando a vontade que eu acredite na realidade que um dia inventamos.

Sei que um homem hoje abriu aquela porta, sei que ele entrou nos teus desejos, sei também pelos teus olhos de sombras que ele tocou no teu desespero. O que mais se passou aqui? Ele te bateu, te xingou, te cuspiu, te molestou? Quanto da tua pele ele sentiu? Quanto da tua carne ele abriu? Diz-me aí jogado, ele agora te conhece mais do que eu? Ou será, acenda esta luz, ou será que ele ainda não te conheceu?

Mira-me e desenha-me como lidar que este chão frio conhece agora os teus joelhos e não mais só os meus. A tua humilhação me humilha. Morde a minha esperança. Vomita a minha fantasia. Se ora eu interpretava como exageros a vida de fetiche, agora esta decepção me faz pensar se não cultivo a mais rígida liturgia. Eu te dei o meu ciúme, te daria os meus segredos, mas como me abaixar se nem de pé você fica? Eu penso demais, eu sei, falo mais do que deveria. Minhas palavras, porém, só existem nos teus silêncios, nos teus escuros. Se tocasses fogo neste quarto, talvez eu me calasse. Temo principalmente que tu te tornes tão somente objeto de minha escrita. Quando escrevo, algo morre, se mata, abre mão da vida.

Não queiras transformar-te num verso. Teu corpo de animal ainda está aí. Tuas mãos, tuas pernas, teus pelos, vejo que ainda tens um rosto, és uma imagem ainda com sentido. Eu tinha desejos e pequenas fés, tenho também egoísmos. Mas tenho. Mas sou. Sejas também, te suplico. Não sei se esqueço, se suspiro, talvez seja este teu ensinamento: um homem em busca de caminhos. Ajuda-me a querer tentar, que eu te conduzo a conduzir-me. Minha queda te ajudará a levantar, meus escuros iluminarão a tua vida, nosso prazer se encontrará. Este quarto, aquele homem, tua pele molhada, minhas dúvidas, os meus e os teus incômodos, pode ser o nosso começo. Olha estes meus olhos e perceba que eu ainda te busco. Ajoelho-me. Entenda-me. Ah sim, vejo que te ergues, agora só preciso que me ajudes a querer tentar acreditar.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

resguardo

quando penso em dizer
e gritar
murmurar
espernear
socar os pronomes contra a parede
acusá-los com muitos verbos atirados no chão

eu desisto

calo, porque é melhor
mais fácil
e deixo

tem coisa que não se pede
a vida dá

tem coisa que vem devagar
atenção amigos amor
lembrança

eu preciso só é me lembrar

mesmo que os de agora pratiquem
o me esquecer

espero só que não me esqueçam assim
tão totalmente

terça-feira, 5 de abril de 2011

Rasurado

eu não combino com minha
solidão
por isso ninguém a imagina
nem acredita nela

dizem que pensam e pensam que acham
que eu brilho por aí —
brilho nada

murmuram que eu me basto
dentro da minha casca —
uma casca azul e fria —
basto nada

não percebem que minha palavra
chega do lado esquerdo
com minúscula, e nunca consegue
deixar de ser calada

não acreditam na minha tristeza
na minha falta de prumo
creem só nessa altivez —
que nunca tive

saibam portanto da minha desinteligência
da minha feiura
que tudo que escrevo começa e termina
com uma rasura

sou só um rabisco
mesmo que pareça — até entendo que pareça —
tudo o que de verdade
não acontece

as pessoas acham que eu as abandono
não sabem, tristes,
felizes, egoístas, o quanto
elas me abandonam também.